18 de outubro de 2019

Quem tem medo de juros baixos?

“Taking a new step, uttering a new word, is what people fear most.” 
(Fyodor Dostoevsky)

Olá meus amigos da blogosfera financeira, tudo bem? Hoje o assunto está relacionado a seguinte notícia: Itaú Asset acredita em Selic a 3,75% em 2020.  Isto significa que o juro real ficará próximo de 0 (zero), portanto a pergunta que eu faço é: Qual serão os desdobramentos para um longo período de tão juros baixos ??
Será que o Brasil terá juro real ZERO???
1) Migração de Fundo de Renda Fixa para Fundos Multimercados 

Até setembro/2019 a captação dos fundos multmercados cresceu 180% em relação ao mesmo período do ano passado (fonte), com resgate líquido de R$ 1 bilhão dos fundos de renda fixa.

A grande parte dos fundos multimercados ganharam muito dinheiro nos últimos anos operando juros e dólar, ou seja, não havia necessidade de correr tantos riscos com as oscilações do Ibovespa se o mercado de renda fixa e câmbio gerasse o retorno esperado. Com juros reais próximo a zero, o foco deve ser na economia real e em breve deve ocorrer uma série de IPOs para captar essa migração de recursos da renda fixa.

2) Dificuldade dos Fundos de Pensão em atingir a sua meta atuarial 

Neste novo cenário, os fundos de pensão que possuem meta atuarial de IPCA+5% necessariamente precisam correr mais riscos. A meta atuarial corresponde à rentabilidade mínima que os investimentos precisam atingir para o cumprimento das obrigações assumidas pelo plano. Por exemplo: A Previ possui meta atuarial de INPC + 5% ao ano, ou seja, estima-se que em um ano os investimentos tenham rentabilidade de 5% acima da inflação. (fonte).

Como eu sou servidor público estadual, o fundo de previdência que sou obrigado a contribuir possui cerca 12% em investimentos em fundos de renda variável e vem tendo muita dificuldade para conseguir atingir a sua meta atuarial (IPCA+5%). Particularmente, não espero muita coisa dessa previdência.

3) Lançamentos das Séries de Opções com vencimentos mais longos

Estamos em Outubro/2019 e já está disponível as séries de Abril/2021, ou seja, daqui a 17 meses. É possível que no início do ano que vem sejam lançadas as opções para dois anos (24 meses). Mas afinal, qual é a vantagem em utilizar as Opções "longas"?? Mais detalhes neste video apartir do minuto 24.

Se você não sabe nada sobre opções, recomendo ler esta postagem para entender a diferença entre CALLs e PUTs.  Considere os seguinte valores obtidos em 18/10/2019:

  • PETR4 R$ 27,88 
  • PETRD300 R$ 4,82 (CALL com Strike R$ 30,00 e Vencimento em 19/04/2021)
  • PETRP300 R$ 5,20 (PUT com Strike R$ 30,00 e Venciemento em 19/04/2021)

Oferta de CALL para Longo Prazo

Considere o Banco A que possui fundo de previdência e precisa alcançar a sua meta atuarial, como foi abordado no item 2, com a queda dos juros está cada vez mais difícil alcançar esta meta atuarial sem correr tantos riscos. A pergunta a ser feita para o Banco A seria: "Você estaria disposto a assumir a Petrobrás (PETR4) a R$ 23,00 daqui a 17 meses (Abril/2021)?". 

Sabendo que o valor intríseco atual da PETR4 é maior do que R$ 23,00, o Banco A faria a seguinte operação: compra PETR4 a R$$ 27,88 e vende PETRD300 a R$ 4,82, portanto seu custo de aquisição é de R$ 23,06. Se em Abril/2021 a PETR4 estiver acima de R$ 30,00, esta operação irá gerar um ganho de R$ 6,94, ou seja, 30% sobre o custo inicial (R$ 23,06) em 17 meses. Este retono é equivalente a 1,56% por mês, sendo mais do que suficiente para cobrir a meta atuarial com certo grau risco.

Oferta de PUT para Longo Prazo

Para montarmos a estratégia dual é necessário ter liquidez tanto nas CALLs quanto nas PUTs. A pergunta que deve ser feita para o BANCO B: "Você quer ganhar mais do que 115% do CDI em 17 meses sem risco?". 

Sabendo que há um Banco A disposto a financiar a PETR4 por R$ 23,06, ele faz a seguinte operação: aluga e vende a ação a R$27,88, para em seguida comprar a opção PETRD300 a R$ 4,82, ou seja no final da operação ele recebe R$ 23,06. Apesar de receber hoje R$ 23,06, este banco terá que vender este papel a R$ 30,00 em Abril/2021 por estar vendido na call PETRD300. Embora aparentemente seja uma estrutura desvantajosa, este banco pode vender a PUT PETRP300 para receber R$ 5,20.

No total, este banco recebeu R$ 28,26 (vendeu PETR4 a 27,88, comprou PETRD300 a R$ 4,82 e vendeu PETRP300 R$ 5,20 => 27,88-4,82+5,20 = 28,26) para daqui a 17 meses pagar R$ 30,00. Desta forma, basta aplicar este R$ 28,26 no DI (5,5% ao ano) de 17 meses que irá gerar no final o valor bruto de R$ 30,50, gerando um retorno de R$ 0,50 sobre o lastro que é R$ 30,00. Este retorno é de 1,6% (0,50/30) sem colocar dinheiro e sem risco utilizando apenas lastro. Se o DI do período foi 8%, o retorno obtido foi 9,6% em 17 meses.

4) ROE das empresas do Ibovespa acima do CDI


Nos últimos anos, o retorno sobre patrimônio líquido (ROE) das empresas do Ibovespa dificilmente ganhava do CDI, aumentando o custo de financiamento de muitas empresas. Entretanto em um ambiente normal, onde os juros são mais baixos, as empresas são mais lucrativas do que os juros.  Nosso mercado de capitais ainda tem muito a evoluir, onde há possiblidade de várias empresas de capital fechado buscarem fazer a sua oferta inicial de ações (IPO) e, consequentemente, terem acesso a custo de capital muito mais baixo.

O problema nesse cenário é o surgimento de empresas inovadoras/disruptivas que focam em crescimento, queimam bastante caixa operacional e vendem uma taxa de crescimento exponencial. Exemplo de empresas que só surgiriam em ambiente de juros baixos e não geram lucros: Uber, Netflix, Tesla e WeWork.

Conclusão

Você notou que recentemente há uma enxurada de cursos de "Como investir na bolsa de valores" tem aparecido na sua timeline? A quantidade de youtubers de finanças querendo te ensinar a investir? O surgimento de várias casas de análise (reseach independentes) sobre ações? Percebeu que aumentou a quantidade de follow-ons, IPOs e subscrição de FIIs no ultimos meses?  O número de CPFs na B3 está acima de 1 milhão de investidores? Isto significa que estamos em um bull market e devemos ser cuidadosos neste momento.

Lembre-se que Warren Buffet tem uma frase:" Seja ganancioso quando os outros estão cuidadosos e seja cuidadoso quando os outros são gananciosos". Portanto, apesar das promessas de ganhos extraordinários na renda variável, é necessário avaliar se o nível de risco da sua carteira está adequado ao ser perfil como investidor. 

Entretanto, este novo patamar de juros representa uma mudança de paradigma na estrutura dos demais ativos, inclusive bolsa de valores e imóveis. Gostaria de compartilhar com vocês o meu otimismo com esta novo paradigma com a morte da renda fixa, ou seja, a partir de agora podemos chamar definitivamente de PERDA FIXA.

Grande abraço e até a próxima.

13 comentários:

  1. Olá, AF.

    Se a selic ficar em 3,75% realmente vai ser perda fixa. Eu estou e continuo investindo em renda variável.

    Abraços!

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    1. O juro real líquido (após IR) que o tesouro direto paga hoje não é muito diferente daquele que ele pagava quando a gente conseguia comprar um pré fixado com mais de 10%.

      A vantagem era que, naquele momento, a gente podia comprar e, se a situação melhorasse (queda na inflação), a situação de quem comprou melhorava muito. Era uma excelente margem de segurança.

      Hoje dificilmente eu diria que a inflação vai melhorar (abaixar) ainda mais. Então meio que só sobra o outro lado, que é pra cima. E nesse caso, ferra com quem compra título pagando 3.2% + IPCA. Por outro lado, se a inflação ficar nessa faixa pequena, esse título não tá ruim.

      Mas eu já vi essa estória antes. No governo Dilma também tivemos época de juros reais na casa dos 3%. Todo mundo achava que essa era a nova regra e depois degringolou. OK que a economia agora é muito diferente da época da Dilma, mas a inflação baixa de agora também não é por evolução da nossa economia (tá mais pra ninguém ter dinheiro pra comprar mesmo...).

      Moral da estória é que eu fico com o pé atrás na renda fixa. Sigo comprado nela (tenho muito título antigo ainda, longe do vencimento) e, quando tenho que comprar agora (rebalanceamento etc), vai tudo pra Tesouro SELIC esperando a época de migrar deste para outro título/outra classe de ativo melhor.

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    2. Olá Anônimo,

      A realidade vai começar a mudar quando o CDI empatar coma inflação. Não podemos mais comparar com o passado se realmente a SELIC chegar a 3,75% com o IPCA de 3,5%, pois quando tirar o IR o ganho real vai ser negativo.

      A pergunta que deve ser feita é: a queda de juros é estrutural? Quais fatores levaram a esse patamar? O grandes bancos com ROE na faixa de 20 % deve cair para um dígito em um futuro próximo.

      As pessoas que não investem em renda variável necessariamente terão que correr mais riscos ou terão um retorno igual a FGTS, ou seja, quase nada.

      Obrigado pelo comentário, abraço

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  2. Boa noite, Aportador! ótimo post, só discordo da conclusão! A renda fixa poderá até perder espaço na carteira, mas daí a virar "perda fixa" jamais. Justamente por estarmos em um aparente bull market (sinceramente, a maioria dos meus ativos está impossível de comprar devido aos altos preços) o mais razoável é deixar na renda fixa e aguardar algum período volátil pra aportar, mesmo que seja um pequeno desconto.

    No mais, estão dizendo que o Brasil "agora vai ficar uma potência". Gente, estamos no Brasil. Brasil é Brasil. Vai e volta. Não podemos nos estusiasmar demais, ou o tombo pode ser grande!.

    Abraço!

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    1. Compartilho da sua opinião totalmente TumTum. Abcs

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    2. O juro real líquido (após IR) que o tesouro direto paga hoje não é muito diferente daquele que ele pagava quando a gente conseguia comprar um pré fixado com mais de 10%.

      A vantagem era que, naquele momento, a gente podia comprar e, se a situação melhorasse (queda na inflação), a situação de quem comprou melhorava muito. Era uma excelente margem de segurança.

      Hoje dificilmente eu diria que a inflação vai melhorar (abaixar) ainda mais. Então meio que só sobra o outro lado, que é pra cima. E nesse caso, ferra com quem compra título pagando 3.2% + IPCA. Por outro lado, se a inflação ficar nessa faixa pequena, esse título não tá ruim.

      Mas eu já vi essa estória antes. No governo Dilma também tivemos época de juros reais na casa dos 3%. Todo mundo achava que essa era a nova regra e depois degringolou. OK que a economia agora é muito diferente da época da Dilma, mas a inflação baixa de agora também não é por evolução da nossa economia (tá mais pra ninguém ter dinheiro pra comprar mesmo...).

      Moral da estória é que eu fico com o pé atrás na renda fixa. Sigo comprado nela (tenho muito título antigo ainda, longe do vencimento) e, quando tenho que comprar agora (rebalanceamento etc), vai tudo pra Tesouro SELIC esperando a época de migrar deste para outro título/outra classe de ativo melhor.

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    3. Olá Tum Tum e AA40,

      E questão não que "Agora vai ser diferente" ou "O Brasil vai virar uma potência". Basicamente, a maioria das pessoas "investem" na poupança, tesouro direto e fundo de renda fixa de Banco no varejo.
      Com a inflação diminuindo o poder de compra a cada ano poderá acontecer duas situações:
      1) Parar de poupar e aumentar o consumo porque não "vale a pena investir"
      2) Comprar ações para obter mais retorno.

      Se você precisa de dinheiro de curto prazo, o caminho é a renda fixa. Mas quem não tiver na reda variável, infelizmente vai ver o bonde passar.

      Durante o governo Dilma, as taxas de juros cairam e o juro real ficou próximo a 1%, porém não houve uma mudança estrutural e os agentes econômicos não precificaram um aumento nos lucros das empresas.
      Esta semana começa a divulgação dos resultados corporativos, veremos um crescimento nos lucros das empresas, sinalizando que no valuation atual a bolsa está barata.

      Grande abraço

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  3. Tenho sempre um pé atrás, em poucos anos a situação poderá ser exatamente oposta. Mantenho minha alocação de ativos na casa dos 45% em renda fixa.

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    1. É verdade Vagabundo,

      Para quem já esta FIRE, o mais importante é manter o patrimônio. mas até quando você conseguirá se manter com 45% do seu patrimônio perdendo da inflação a cada ano??? Os modelos de TSR com 4% ao ano considera algum ganho acima da inflação.

      Grande Abraço

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    2. Bom ponto, porem nesses 45% que eu falei tem um monte de IPCA+ que ganha da inflação com certeza, mais algo de pré-fixado que pelo andar da carruagem ganha de lavada. Tem algo de CDI/Selic sim mas faz parte, tem que ter algo pra domar a volatilidade. Tao importante quanto ganhar dinheiro é nao perder dinheiro pois agora nao tenho mais aportes :-)

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  4. Olá Aportador!
    Excelente post!
    Acredito que toda carteira previdenciária deve ter alguma renda fixa, o que reduz a volatilidade dos ativos e permite o investidor aproveitar as promoções. Warren Buffett usa esse conceito em sua empresa.
    Por outro lado, como os colegas já comentaram acima: Brasil não é pra amadores!
    Esse juros baixos não são reflexo de alguma política genial tupiniquim, mas o reflexo da crise de liquidez provocada pelos países ricos, sendo assim olho tudo com muita parcimônia.
    Grande abraço!

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    1. Olá Janota,

      Desde da crise de 2008, com a atuação dos Bancos Centrais, os juros no mundo todos cairam e até estão negativos no mundo todo. O que está contecendo no Brasil é reflexo desta nova realidade.

      Pode ser que estoure um bolha quando um choqu externo ocorrer, mas até lá o custo de oportunidade é enorme. Não vejo a renda fixa fixa no Brasil, algo muito diferente de como é no exterior, ou seja, um instrumento para no máximo manter o capital alinhado a inflação, mas não para ter ganho real como era anteriormente.

      Grande abraço e obrigado pela visita.

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